Entrevista com Renshi Getúlio Taigen - SKI Brasil
Retirado na íntegra da comunidade KARATE DE COMBATE  do orkut. Dia 09/03/2009.

Amigos da comunidade, é com satisfação que trago essa entrevista com Renshi Getúlio Taigen, que é um dos grandes mestres do Shotokan Karate no Brasil.
Espero que gostem, eu gostei muito.

Osu.

1° - Renshi Getulio, por favor, apresente-se para a comunidade e fale um pouco para nós de sua vida no Karate-do.

R: Minha vida no Karate começou aos 10 anos de idade, eu era muito fraquinho e medroso, apanhava todas as semanas na escola, meu pai, preocupado comigo entendeu de me levar para treinar Karate. Iniciei com um professor japones, Okuda, do qual após cerca de alguns meses, voltou para o Japão e nunca mais ouvi falar dele, depois treinei mais alguns meses com um aluno do Benedito Sensei (não me recordo o nome), aí soube que um japones (teruo Furusho) havia começado a dar aulas perto de minha casa, me matriculei e treinei com ele, reiniciando na faixa branca. Os treinamentos eram diarios, demoravam cerca de 2h 30mts. As segundas era de kihon parado, às terças, kihon andando, às quartas Kata e defesa pessoal, às quintas, sequencias de ataque e defesa, às sextas estudo de combate e aos sábados Jiu Kumite.
Iniciei em 1967, em 1978 fui a shodan, todos os meus exames até roxa foram avaliados pelo Benedito Sensei e os exames de marrom até San dan (terceiro grau) pelo Juichi Sagara Sensei (já falecido), os outros foram avaliados por banca examinadora da Federação.

Qd começei a praticar e, até meados dos anos 80 o Karate era uma arte marcial com objetivos bem definidos, primava-se o contato pleno, o hiken hisatsu (um golpe uma morte), respirava-se Budo, a etiqueta a conduta e a exaustiva prática diária propiciava aos alunos o entendimento do real objetivo de uma arte marcial, produzia-se verdadeiros guerreiros da paz, na verdadeira concepção da palavra. Após essa período, iniciou-se, o que no meu entender veio a ser a falência do Karate marcial. Surgia o Carate esportivo, onde a finalidade era a marcação de pontos e não a arte marcial como instrumento formador de caráter, como orgão disciplinador, não mais um guerreiro combatente à favor da justiça e da honra, mas uma atleta. Mestres passaram a ser apenas técnicos.
Qd fui notificado oficialmente pela federação, que o Karate deveria ser direcionado apenas para o desporto, me neguei a mudar meu entendimento e minha prática, não concordava com a mudança, que para mim seria deterioração do Karate. Como resultado, por cerca de 15 anos fui banido da federação, considerado "persona não grata" e impedido de fazer exame de faixas, somente retornando, com a chegada do Kanazawa, que vinha com a intenção de resgatar o verdadeiro karate Budo, que havia sido esquecido e relegado a segundo plano. O presidente da federação (que era o meu antigo professor) me chamou de volta e pude sair do castigo, retornar a federação, partcipar dos cursos, seminários e fazer os exames de faixas, até chegar a graduação atual de roku dan (sexto grau).
Para falar a verdade, apesar de travar bom relacionamento com toda a diretoria da federação, é claro é facilmente percebível que o Karate que pratico é bem diferente daquele praticado por todos outros dojos.
Dou aulas há cerca de 30 anos, tendo conseguido formar 6 faixas pretas, que são pessoas de renome na sociedade, como juiz, promotor publico, neurocirurgião, empresário, advogado etc. Tudo o que sou, tenho e penso devo ao karate.

2° - Em sua visão, o que o Karate tem que o diferencia de outras artes marciais?

R: O Karate marcial possui grandes diferenças que o distinguem de todas as outras lutas de contato, esportes de competição e artes marciais. Possui um rígido código de conduta, permitindo que o praticante possa levar para o dia-a-dia a disciplina necessária e a persistência imprescindível ao sucesso como profissional, pai de família e amigo. Capacita seu praticante desenvolver a confiança necessária para as vicissitudes da vida. Produz um homem de bem, justo e preocupado com os sofrimentos sociais. Isso sem falar na auto defesa que computo como uma das melhores existentes.

3° - O Shotokan está dividido mundialmente, por que o senhor escolheu a JKA?

R: Na verdade, não sou filiado a JKA, sou filiado a SKI, apesar de "passear" com muita tranquilidade pela JKA e todas as outras federações, nas quais possuo grandes amigos. Enxergo as federações como orgnismos administrativos, que "deveriam" primar pelo desenvolvimento do Karate como um todo, criando oportunidades de aprimoramentos, não somente de pessoas físicas (praticantes), mas tb de pessoas jurídicas (academias, dojos etc), infelizmente o que observo é uma grande preocupação em lotar campeonatos e produzir campeões.

4° - Dentro do Shotokan, destaque um sensei que sirva de exemplo de budoka no Brasil e qual sua relação com este sensei?

R: Existem grandes professores, que respiram o Karate e são verdadeiros exemplos de sabedoria e conhecimento, os quais poderia destacar o Ugo Arrigone, o Benedito Sensei, Machida Sensei e outros.

5° - Como são realizados os exames de graduação em seu dojô? Quais as especificidades do exame no Shotokan?

R: No meu dojo os exames são efetuados 2 vezes por ano, sendo que á partir da faixa vermelha passa a existir o tameshiware (quebra), faixa vermelha - 2 telhas com soco. Laranja - 3 telhas. Verde - 4 telhas. Roxa - 5 telhas, 2 cabos de vassoura com a canela, 2 telhas com mawashi gueri, 2 telhas com mae gueri, 2 telhas com yoko gueri. Marrom - 8 telhas, o mesmo que a faixa roxa, apenas aumentando mais uma telha nos chutes e mais uma cabo de vasoura.
De branca a laranja os exames são efetuados de 6 em 6 meses, de verde em diante, uma vez ao ano, ate marrom, onde deverá esperar até estar pronto para fazer exame para preta, podendo permanecer nesta faixa por vários anos.
As faixas são assim distribuidas: Branca. Amarela. Vermelha, vermelha 1 grau. Laranja, laranja 1 grau, laranja 2 graus. Verde, verde 1 grau, verde 2 graus, verde 3 graus. Roxa 1 grau, roxa 2 graus, roxa 3 graus.Marrom, marrom 1 grau, marrom 2 graus, marrom 3 graus. No exame da faixa roxa, o aluno deverá discorrer para a a platéia sobre um dos 20 preceitos (niju kun) a ser escolhido pela banca. No exame de graus na faixa marrom, consta de uma série de perguntas que o aluno deverá responder para a platéia, discertando sobre a origem do Karate, sobre seus postulados, seus princípios, suas modificações, sobre os estilos etc.

Creio que uma das coisas importâncias do exame de faixas, além da transparência, seja a possibilidade de avaliar o aluno sob tensão, sob pressão. Treino é treino, vida real é outra coisa... É necessário que se perceba como o aluno reage numa situação de stress, com todo mundo olhando, mãe, namorada, amigos, recebendo nota, não tendo o direito de errar... já diz o ditado: - O que faz o mão do arqueiro tremer é a obrigação de acertar ...
Não nos esqueçamos que o Karate é uma arte marcial, onde se espera capacite o seu praticante para uma situação em que seja necessária uma resposta rápida e eficaz, seja ela física, emocional ou psicológica, nada melhor que um exame para bem sabermos como ele se comporta qd faz-se necessário calma e tranquilidade qd todos ao seu redor já a perderam.
No meu entendimento, o aluno pode ser o "rei da cocada preta" durante as aulas, se no exame ele não conseguir render pelo menos 80%, é prova inequívoca de que numa situação real ele não renderia nem 50%, então eu o reprovo ou o coloco em dependância, dependendo do caso.
Tive um aluno que nas aulas era simplesmente perfeito, nada a ser corrigido, entretanto ficou em dependencia por 3 exames de faixas para marrom, pq não conseguia quebrar umas míseras 8 telhas, (telhas não se defendem, não te atacam, ficam ali paradinhas, pq ter medo delas?), somente conseguiu quebrar as telhas no terceiro exame de faixas, após ter efetuado um verdadeiro mergulho na meditação zen, para descobrir pq tinha medo das telhas. Ele era modelo da agencia Elite e acabou descobrindo que não conseguia quebrar as telhas pq tinha medo de machucar as mãos, à partir do momento que ele soube o pq, venceu o medo, quebrou-as facilmente e passou para marrom, atualmente ele é preta shodan. Resumindo, creio que o mais importante é perceber que o postulante a faixa preta, conseguiu transferir para a vida o que aprendeu dentro do Dojo.

6° - Qual sua opinião acerca da picaretagem que assola o Karate?

R: É o sinal dos tempos, tudo tem que ser rápido, crianças com 10, 12 anos chegam a preta com a técnica e conhecimento de faixa verde. Pseudos professores, ensinam um Karate deformado, minimizado, que nem de longe lembra o Karate real. Uma verdadeira deturpação do verdadeiro objetivo do Karate. Ninguém mais treina o Karate de forma marcial. Makiwara , sunatawara, protetores etc, sãocoisas do passado, é raro encontrar uma academia de Karate Shtokan que ainda tenha esses utensílios, qd, por ventura, os tem, é mero objeto de decoração. O karate desportivo passou a ser motivo de escárnio, ridicularizado por todos os praticantes sérios de artes marciais. Os exames para preta efetuados pelas federações, alvo algumas excessões ou aberrações, são mera formalidade, além de abusivos economicamente. No último exame do qual participei da banca examinadora, com 94 participantes, só aprovei um, mas é claro ... fui voto vencido e todos foram aprovados. Creio que alguma coisa urgente deve ser feita nesse sentido, ou estaremos legando aos nossos descendentes, um Karate, ineficiente como defesa pessoal, ineficaz como prática formadora de caráter e totalmente em desacordo com suas premissas básicas.

7° - Como o senhor vê o karate nas olimpíadas? É prejudicial para a arte ou não?

R: Vantagens: Capacitar a todos a prática do Karate, mesmo aos mais desfavorecidos, a alcançar o ideal olímpico e fazer com Karate brasileiro e mundial seja conhecido no mundo todo.
Desvantagens: Acabar com a essência do karate e sua efetividade marcial.

8° - Como o senhor enxerga as organizações de Karate que tem competições nas regras de contato, ao estilo "luta de contato Oyama"?

R: Gosto muito, se fosse começar a treinar Karate hoje, treinaria Karate da escola Oyama. Entretanto, creio que infelizmente, até mesmo o Karate Oyama, esteja sendo muito influenciado pela esportivização. Percebo que atualmente só se treina visando campeonatos, torneios etc, isto acabará desvirtuando o propósito original da criação de um estilo verdadeiro e real de Karate, idealizado pelo Mestre Oyama. Por outro lado, vejo seus praticantes como verdadeiros guerreiros, na correta concepção da palavra. Os treinos são voltados para a finalização, nunca para a marcação de pontos, os ataques visam o contato pleno e real, isso é Karate. Acho apenas que iniciativas deveriam ser otimizadas, para que esse estilo pudesse ser aberto a todos, mesmo para os fisicamente fracos, tenho observado um grande apelo a força física. Noto que nas lutas (pelo menos nos campeonatos), raramente se utilizam defesas, desvios, deslocamentos, mas sempre um "batendo" no outro, como se fosse um torneio para verificar quem aguenta mais pancada. No passado, tive a oportunidade de ir treinar na academia do Sensei Isobe, em São paulo, me lembro que as lutas eram um pouco diferentes de agora, visava-se a defesa e o contra-golpe contundente, o objetivo era derrubar, ninguém se preocupava em fazer golpes bonitos, em ficar "vendo" quem aguentava mais. Mas de uma coisa tenho que admitir, nenhum estilo de Karate pode se gabar de ter colocado tanto "a cara pra jogo" como o fizeram e fazem os de Karate de Contato, isso por si só, já é o suficiente, para dar credibilidade ao Karate de Contato.

9° - Quais alternativas para que o Karate possa a voltar a ser uma arte marcial mais unida?

R: Unificação das federações, treinos conjuntos, campeonatos abertos, seminários com o comparecimento de todos os estilos. Isso sendo feito, acabaria com a rixa despropositada entre as escolas de karate, entre os estilos, entre as federações, culminando na troca de conhecimentos, um influenciando o outro, um aprendendo com o outro, produzindo um Karate cada vez mais forte e unido, afinal, estratégicamente, todos sabem que a melhor maneira de vencer é dividir. Uma corrente é forte, elos separados, são fracos.

10° - Como nos dias de hoje, é possível ensinar o Karate budô em meio a essa sociedade consumista e individualista que vivemos?

R: Realmente a sociedade moderna, trás em sí mesmo a necessidade da rapidez, exige resultados a curto prazo. Se a globalização e a internet trouxeram grandes facilidades e velocidade, por outro lado, trouxe tb o enfraquecimento dos caminhos marciais, poucos possuem a paciência de treinar anos a fio, afim de dominar uma arte que não lhe trará lucros ou dividendos financeiros a curto ou médio prazo. Destarte, tenho percebido o recrudescimento de pessoas que, talvez, cansadas do imediatismo dominante, procuram caminhos tradicionais, onde possam se reencontar, onde consigam trazer para suas vidas medíocres uma filosofia, uma doutrina, que permeie seus passos, que oriente suas ações, que lhe traga razão de viver. Todo mundo quer ser um herói, mas ninguém quer trabalhar diuturnamente para que isso possa contecer. No meu Dojo, costumo conversar com os novos alunos, afim de tentar entender o pq deles terem escolhido o Karate, entre tantas artes marciais e esportes de combate existentes e facilmente escontrados em cada esquina, sempre que percebo que q intenção do postulante a aluno se baseia em obetivos puramente pessoais, tento desencoraja-lo, mostrando-lhe o quanto demorará para que isso aconteça.

11° - Para encerrar, gostaria que o Renshi mandasse uma mensagem aos amigos da comunidade e fizesse as considerações que achar necessárias.

R: Desejo que todos possam realmente ser felizes, que treinem, estudem e melhorem a arte marcial que escolheram como caminho de vida, sempre digo que os alunos tem a obrigação e o dever moral de serem melhores que seus professores, assim fazendo estarão aprimorando e deixando uma arte marcial sempre nova, real e eficiente.

Oss!

Getulio Taigen
Roku Dan

 

Bela entrevista, de um grande sensei...

A Comunidade "Karate de Combate" agradece ao sensei Getúlio pela entrevista.

Espero que os amigos da comunidade gostem.

Osu