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Oriente-se

O budismo muda de cara e conquista simpatizantes de todas as tribos

Jornal do Brasil - Caderno Vida (28/02/2004)
Daniela Nogueira

No próximo mês, começa o ano letivo da primeira universidade budista do Brasil, em Cotia, na grande São Paulo. Dois meses depois, será a vez de os seguidores de Buda se reunirem no Ibirapuera, também na capital paulista, para celebrar seu nascimento e morte, pelo segundo ano consecutivo. Em 2003, o evento, que teve apoio da prefeitura, arrastou 6 mil pessoas para o parque. Até nos centros de beleza a onda budista chegou. Em janeiro, foi inaugurado no coração de Ipanema o Crystal Care, centro de terapias estéticas e holísticas, cuja decoração é inspirada na filosofia budista. Não há como negar. O budismo está na moda, e vem conquistando cada vez mais simpatizantes, que buscam nos preceitos orientais respostas para perguntas que a ciência e as religiões ocidentais não conseguem explicar.

Reflexo do mundo globalizado, que, aos poucos, vem derrubando as barreiras culturais entre Ocidente e Oriente, e da proliferação de celebridades que aderem ao estilo de vida pregado por Buda.

Basta passar numa banca de jornal para encontrar uma infinidade de publicações sobre práticas orientais. A ioga virou febre em academias e a meditação, sinônimo de bem-estar físico e mental. Aos olhos dos ocidentais, as tradições do outro lado do mundo se tornaram instrumentos para se alcançar a tão desejada felicidade. Um possível revival dos anos 60/70, quando o budismo se tornou pop entre os adeptos da contracultura.

Uma das responsáveis por essa onda pró-Oriente é a figura carismática do Dalai Lama e sua história comovente de perseguição. A luta do líder espiritual em favor da libertação do território tibetano sob domínio da China desde 1950, lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989. A partir de então, ele vem atraindo multidões por onde passa. E ainda conta com a solidariedade de ídolos do cinema americano, como Richard Gere e Sharon Stone, contribuindo para a maior popularização da religião que já conta com 360 milhões de seguidores ao redor do mundo.

O casal Leonardo Fiorito e Gisele Andrade, de 27 e 28 anos, foi um dos que se encantaram com o budismo tibetano. Não com os princípios da religião, mas com a beleza e a simplicidade das cerimônias. Foi depois de assistir a um casamento budista que a designer de jóias Gisele decidiu selar da mesma forma sua união com Leonardo, produtor musical que costuma tocar em boates alternativas, como a carioca Dama de Ferro, freqüentada por amantes da música eletrônica. Em setembro passado, os dois e mais 80 convidados receberam a monja Coen no jardim da casa de Gisele. Ela, de vestido de noiva, e ele, de blusa para fora da calça e tênis.

A família, católica tradicional, custou a aceitar a decisão da filha, mas acabou dando o braço a torcer. Hoje, Gisele freqüenta o Centro de Dharma, em São Paulo, e, apesar de batizada e de ter feito primeira comunhão, se considera mais budista que católica. ''No catolicismo você busca um deus fora de você, no budismo, a busca é interior. Por isso me identifiquei tanto'', diz ela, que já foi ao casamento de mais quatro amigas também celebrados por monges budistas.

Não é possível afirmar que o número de budistas no Brasil está crescendo. Se fizermos as contas na ponta do lápis, ele caiu dos anos 90 para cá. Em 1991, havia 236 mil brasileiros que se diziam budistas. Em 2000, eram apenas 214 mil, segundo dados do IBGE. Explica-se: os imigrantes ou descendentes de japoneses mais velhos estão morrendo e as gerações seguintes não seguem a crença dos avós. Desde cedo, tiveram contato com costumes ocidentais e acabaram abandonando velhas tradições. Os dados do IBGE, no entanto, não contabilizam o número de simpatizantes, aqueles que compram os livros do Dalai Lama, que meditam antes do café da manhã ou que celebram o casamento nos moldes budistas, como Gisele e suas amigas.

Converter-se ao budismo e tornar-se monge é coisa para poucos. Na recém-inaugurada universidade budista de São Paulo, os alunos ficarão quatro anos em sistema de internato, com direito a visitar a família nos fins de semana apenas no primeiro ano. ''É preciso muita disciplina e uma grande capacidade de desapego'', diz o professor de budismo Carlos Miklos, 41, que encontrou nos ensinamentos de Buda uma alternativa para o caminho das drogas. Carlos sempre foi introspectivo e tinha tendência à depressão. Sentiu-se atraído pelo budismo aos 17 anos, por acreditar que esta religião tinha um quê de misticismo. Mergulhou fundo nos livros e incorporou os preceitos budistas de tal forma que começou a ensiná-los aos 23 anos. ''O budismo me ajudou a lidar comigo mesmo e a driblar meu perfil autodestrutivo'', diz ele, que tem uma filha de 2 anos e é casado com uma adepta do xamanismo (religião de povos no Norte da Ásia).

Apesar de o número de convertidos ter caído, é fato que o budismo está saindo dos templos e mudando de cara. Deixando de ter olhos puxados e cabelos lisos e negros para ganhar pele morena e fios crespos ou olhos azuis e madeixas aloiradas. Uma das razões para essa expansão camuflada são as próprias atividades dos monastérios, que têm procurado se aproximar do mundo do lado de fora do muro. Desde o ano passado, o templo Chagdud Khadro Ling, em Três Coroas (RS), mantém o Grupo de Apoio ao Luto (GAL), que já atendeu cerca de 15 pessoas. ''O GAL oferece um espaço onde as pessoas podem compartilhar sua experiência, proporcionando-lhes uma oportunidade de descobrir seus próprios recursos internos para lidar com a perda e a mudança'', diz Elise de Grande, discípula de S.Ema. Chagdud Tulku Rinpoche, fundador do templo.

Em Ibiraçu (ES), o mosteiro Morro da Vargem, que adota o zen budismo, foi mais longe. Há cinco anos, os monges desenvolvem atividades de conscientização ecológica com estudantes e policiais militares. Durante dois dias, eles ficam no mosteiro aprendendo a importância da preservação da natureza. Quinze mil alunos e 7 mil policiais já passaram por lá. A intenção é capacitar os policiais de todo o estado. ''Na maioria das religiões, a compaixão é entendida como amor ao ser humano. No budismo, ela se estende a todos os seres. É isso o que procuramos transmitir aos que participam desse projeto'', diz o abade Daiju Bitti, que mora há 25 anos em Morro da Vargem.

Essa valorização da vida em todas as suas manifestações tem um porquê: o budismo crê na reencarnação. Nascemos e morremos infinitas vezes e, quando voltamos à vida, podemos assumir diferentes formas, da minhoca debaixo da terra a um alto executivo de uma multinacional. O que há de comum em todas essas etapas da vida é nosso carma: o que fazemos retorna para nós mesmos e o que causamos terá efeito em nossa vida futura. Quem faz o mal receberá o sofrimento como fruto de seus atos e quem pratica o bem será recompensado.

No budismo, não há pecado ou a noção de um Salvador a quem se deva confiar a vida. O caminho para alcançar a iluminação depende do próprio indivíduo. ''Todos os seres humanos têm um Buda dentro de si. Não há mediador externo'', afirma a antropóloga Regina Novaes, do Instituto de Estudos da Religião (Iser). ''Apesar de milenar, o sistema de pensamento budista é bastante moderno por enfatizar a inutilidade de uma fé cega. Em outras palavras, um budista não deve acreditar em nada que não possa provar com sua própria experiência'', completa o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP Frank Usarski, autor do livro O Budismo no Brasil (ed. Lorasae).

Há quatro verdades que orientam a filosofia de vida budista: tudo é transitório e, portanto, causa sofrimento; sofremos porque buscamos a realização em algo transitório; podemos evitar o sofrimento se deixarmos de procurar a felicidade em acontecimentos transitórios; e há uma metodologia para isso, que é a meditação. Foi lendo esses ensinamentos que Monica Lagreca, 37, se identificou com o budismo. Asmática, Monica teve câncer de pele quando adolescente e viu seus negócios se transformarem em ruínas, depois de um acidente fazendo rapel - ela tinha uma empresa de turismo. ''Senti necessidade de buscar apoio e encontrei no budismo forças para me recuperar'', diz ela, que contrasta totalmente com o visual simples dos monges. Tem cabelo espetado, piercing na sobrancelha e tatuagem na perna.

O conforto que Monica procurou nos princípios de Buda é o mesmo que busca boa parte do ocidentais. Uma das inevitáveis conseqüências da globalização é a perda de referências. Ao tomar contato com outras culturas, passamos a questionar aquilo que nos foi ensinado e a procurar caminhos que coloquem nossos pés de volta no chão. Diante dessa situação, entregar-se a uma religião é recorrente. ''O mundo hoje é um verdadeiro mercado de religiões. No meio de tantas ofertas, o budismo se sobressai porque não tem dogmas. Ele não foi construído em torno da figura de um Salvador, e sim do próprio homem. Prega que o ser humano deve buscar o autoconhecimento porque a resposta que procura está dentro de si mesmo'', diz o monge budista e ex-professor de religião da Universidade de São Paulo (USP) Ricardo Mario Gonçalves, do Templo Higashi Honganji, na capital paulista.

É improvável que o budismo desbanque o catolicismo no Brasil. Da mesma forma que a comida japonesa sofreu mudanças para se adaptar ao paladar brasileiro, o budismo também ganhou novos contornos para cair no gosto nacional. Uma das características dessa expansão é o sincretismo religioso. Os simpatizantes do budismo meditam, freqüentam templos e sonham com viagens para a Ásia, mas não deixam de ir à missa aos domingos e querem ver seus filhos batizados por um padre. A professora de redação Fátima Fonseca, 45, freqüenta um templo budista há oito anos, mas casou-se de véu e grinalda e vai à igreja em todos os feriados católicos. No altar em casa, convivem pacificamente imagens de Nossa Senhora, Anjo Rafael e Buda. ''Jesus Cristo e Buda nasceram em momentos diferentes, mas a essência é a mesma'', diz. No fundo, talvez ela tenha razão. A diferença entre eles está nos olhos - puxados ou não - de quem os vê.

Os caminhos de Buda

Buda é o nome dado a Sidarta Gautama, príncipe indiano que nasceu por volta de 500 a.C. na fronteira entre a Índia e o Nepal. Diz a lenda que o rei trancou Sidarta no palácio para protegê-lo dos sofrimentos mundanos. O príncipe vivia repleto de riquezas, cortesãs e até uma esposa, mas mesmo assim sentia uma enorme sensação de vazio e, aos 29 anos, decidiu abandonar o palácio. Foi então que Sidarta conheceu a doença, a velhice e a morte, e jurou encontrar soluções para esses problemas. Sentou-se debaixo de uma árvore e meditou durante muito tempo até atingir a iluminação, e passou a ser chamado de Buda, ''o iluminado''. Depois de alcançar o Nirvana, partiu em peregrinação para difundir o que havia compreendido, os chamados preceitos budistas. Ao longo dos séculos, o budismo se dividiu em várias correntes. As três principais são:

Escola Theravada

Procura seguir de forma fiel os ensinamentos de Buda, não permitindo qualquer alteração nos textos que foram transmitidos oralmente por 400 anos e depois escritos em páli (língua que era falada no Sri Lanka). Também é chamada de Hinayana ou de ''pequeno veículo'', trazendo a idéia de que cada um é responsável pela sua própria salvação - principal aspecto da filosofia da escola.

Escola Mahayana

Em oposição, é chamada de ''grande veículo'': deve-se buscar a auto-salvação mas também contribuir para o desenvolvimento espiritual de todos ao seu redor. Propõe uma visão mais ampla sobre a iluminação. Acredita-se que Buda foi um dentre outros seres que atingiram a iluminação para ajudar os humanos.

Escola Vajrayana

Desenvolvida no Tibete a partir do século 6, juntou a filosofia Mahayana com doutrinas do Tantrismo. Seu principal líder é o Dalai Lama. Acredita-se que a iluminação deve ser alcançada no momento presente com a ajuda de guias espirituais, os lamas.

Para saber mais:

Instituto Nyingman (RJ) Tel: (21) 2579-9388

Templo Chagdud Khadro Ling (RS) Tel: (51) 501-1411

Templo Morro da Vargem (ES) Tel: (27) 3267-1150

 

Gassho

        Dr: Getulio Taigen

Combrac: 0046
Membro do Conselho Brasileiro de Acupuntura
Especialista em Acupuntura Tradicional Japonesa

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