Zen
A CANÇÃO DAS METADES
Creio já ter atravessado a metade ou o meio desta vida
flutuante onde o vasto vazio é soberano.
Meio ..., metade ..., pequenas palavras tão cheias de significados ocultos.
Nesta vida em que alternamos sofrimentos e alegrias em doses homogêneas, de que
nos adianta tentar provar das alegrias ou tristezas, além das que podemos ter.
A metade da vida é a melhor fase, o período mais interessante que alguém pode
querer chegar. Aquele que sabe andar vigilante, devagar, calmo e sem pressa,
obterá um vasto mundo entre o céu e a terra.
Moro há meia distância entre a montanhas e o mar. Sou meio intelectual e meio
desligado, meio elegante porem desarrumado. Vivo em meio aos que tem posses, mas
dirijo meus parcos esforços para o bem do povo simples e carente. Minha sua casa
é adornada, porém meio simples. Não é pequena nem grande demais e, apesar de
possuir bons móveis, parece meio nua e vazia.
Minhas refeições são triviais, simples, mas bem elaboradas por uma
nutricionista. Tenho uma empregada evangélica, que compreende o Zen Budismo mais
que muitos praticantes que conheço, não é astuta nem muito estúpida. Fala quando
pode e finge que entendeu o que não tem a menor idéia do que seja.
Casei com mulher não muito feia nem bela em excesso, que não gasta muito nem é
excessivamente econômica, que usa sapatos altos, mas só para sair, nunca em
casa.
Seguindo assim minha vida, sinto que sou meio Budha meio homem, não sendo nada
completo, nem faltando muita coisa, sou bom pai e esposo razoável. Praticante
sincero e meio desapegado.
A metade do que sou entrego ao Budha, a outra metade deixo para quem quiser (*).
Meio pensando no que seria o correto a ser feito, meio preocupado em como pagar
as contas que teimam em crescer, meio pensando em prover para a posteridade e,
meio tentando responder e corresponder a quem de mim solicita.
Não muito feio, nem belo em demasia, não muito alto nem baixo demais, nem forte
nem fraco, nem magro nem gordo, nem pobre nem rico, nem isso nem aquilo.
Pois, é melhor bebedor quem só meio ébrio fica. A flor a se entreabrir mais
linda se revela. Mais firme é o navegar do barco à meia vela. Melhor trota o
cavalo de rédeas meio presas. Melhor se senta em zazen quem não tenta
impressionar com sua postura perfeitamente ereta. Melhor é comer um pavê sem
culpa, porém só meio pedaço. Mais bonito que olhar o dia ou a noite e vê-lo
nascer e se pôr. Melhor que ver o mestre partindo é saber que já voltou.
Quem tem meios demais sofre de muita ansiedade. Quem não os tem, deles precisa.
Como a vida se faz de doçura e amargor de alegrias e tristezas, de amor e
desamor, de sim e de não, quem só a metade experimenta e prova é mais
inteligente e sábio.
(*) A Monja Coen ao ler esse texto, disse que entregar somente a metade de mim para Budha era muito pouco, que sendo Budha o mesmo que o “todo” e a representação da iluminação inerente a cada um de nós, devíamos nos entregar todo para ele, devíamos dar o famoso passo a frente, mesmo estando no alto de um mastro de 35 metros de altura e, nada de nós podemos deixar para quem quer que fosse pois se somos o conjunto agregado de todas as partes do universo e, se tudo que se agrega acaba se desagregando, como poderíamos faze-lo. Mesmo assim entendi de deixar como estava, apenas fazendo essa pequena resalva.
Dr: Getulio Taigen
Combrac: 0046
Membro do Conselho Brasileiro de Acupuntura
Especialista em Acupuntura Tradicional Japonesa


